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Dica de Filme: A Árvore da Vida

Diretor: Terrence Malick
Ano: 2011
Duração: 2 horas e 20 minutos

Comentário: Esse filme chamado não por acaso de A Árvore da Vida foi muito esperado por mim. Parece que eu estava pressentindo que ali havia um tesouro! E realmente minha sensibilidade não se enganou. O filme é uma verdadeira obra prima, algo que não se encontra a qualquer hora, em qualquer lugar, digo, em qualquer diretor. É um filme a ser saboreado com calma e parcimônia e a ser gravado na memória, para sempre. Absolutamente, não é um filme, para ser consumido e, muito menos, logo esquecido.

Prepare-se antes de ir assistir A Árvore da Vida, pois como o nome sugere, trata-se de um convite para adentrar nas profundezas de nossas origens ancestrais e de acessar nosso mundo arquetípico individual e coletivo. É uma experiência que transcende em muito o simples entretenimento proporcionado-nos uma viagem da qual voltaremos, necessariamente, transformados.

Partindo de uma citação bíblica: “…Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se é que tens inteligência…”(Jó, 38), o diretor trabalha de forma primorosa e surpreendente com imagens da natureza, música, silêncios, pausas e poucas palavras e com atores que estão magníficos, entre eles algumas crianças. Tudo vai sendo orquestrado de modo a compor uma estranha e, ao mesmo tempo, familiar melodia que nos reporta ao berço de nossa origem como planeta e como espécie, dita civilizada.

Dois caminhos são logo indicados como aqueles possíveis e passíveis de escolha como exercício do nosso dom de livre arbítrio: o caminho da Natureza em que busca-se acima de tudo a nossa satisfação e prazer e acredita-se que todos devem agir para a nossa satisfação e o caminho da Graça, onde o amor é a única possibilidade e nos trará todas as recompensas implícitas. A imagem de dinossauros pré-históricos marcando seu território e mostrando quem é o mais forte, mas sem passar deste limite, ou seja, sem precisar matar, extinguir o outro é algo forte e visceral, para dizer o mínimo. As imagens que encantam, envolvem e levam-nos direto ao útero materno, que tanto pode ser percebido como o ventre de nossa mãe humana como de nossa Mãe Terra, são parte dessa profunda experiência transpessoal.

As relações do ser humano consigo mesmo e com seus semelhantes são revisitadas através das relações de uma família de classe média,na qual o pai é um ser de boas intenções porém perdido e persuadido/dominado pelo sistema de crenças de uma época. Esse pai é terrivelmente duro e desumano com seus filhos, especialmente com o mais velho, descarregando nele todas as suas frustrações consigo mesmo e com a própria vida que leva. A mãe é uma mulher doce, amorosa mas que abriu mão de ser quem ela é e de impor seus limites dentro da relação matrimonial e da vida familiar. A perda de um dos filhos é o fio condutor de toda a história contada de forma sutil e retrospectiva, pelo filho mais velho, então já adulto e vivendo em uma megalópolis feita de cimento, vidro e aço.

Tal perda leva o pai, forçado pela dor, a rever sua conduta com o filho morto. É um filme feito de perguntas e não de respostas e por isso mesmo é um filme genial e tremendamente espiritual. É combustível para seguirmos nossas buscas pelo sentido da vida e todas as suas formas e para a nossa existência humana.

As imagens e a música que se interpõem as cenas e as poucas falas inebriam a alma e instigam o espírito na direção de uma dimensão onde não existem palavras nem formas, onde tudo é apenas e simplesmente Um.

O filme A Árvore da Vida bem pode ser definido como uma autobiografia de cada um e de todos nós, escrita com maestria e postada direto em nosso coração.

Assista e depois volte a olhar para dentro de si mesmo e, então, surpreenda-se…

Ingrid Cañete // POA, 15/08/11