Questão de Vida ou Morte – parte 2

Conforme prometi e a pedido, volto a comentar sobre os desafios tremendos de ser adolescente, nesse mundo caótico. Sem dúvida, também não é fácil ser pai, ser mãe de filhos adolescentes, nesse contexto. Mais difícil ainda é ser pai/mãe numa só pessoa, desafio que milhares de mulheres e alguns homens assumem, na atualidade.

Vamos usar como “inspiração” a excelente série da Netflix chamada, não por acaso, de 13 Reasons _ Why ( 13 Razões _ Porquê) que em treze episódios nos conduz pelo fio super sensível e delicado da vida de Hannah, uma jovem de 17 anos que chega a uma nova cidade e a uma nova escola e comunidade, devido a uma crise financeira e estrutural de seus pais. Hannah é uma jovem bonita, perceptiva, inteligente, querida e carente de atenção, de amor verdadeiro, de alguém para poder conversar e confiar seus “segredos”, seus sentimentos e também compartilhar coisas da sua vida diária. Ela “procura” por uma verdadeira amiga para substituir a sua melhor amiga que com a mudança ficou distante. Na verdade, Hannah busca uma amiga e amigos de verdade, como os adolescentes, geralmente, buscam e precisam. Embora alguns jovens não busquem, por diversos motivos. Mas, Hannah busca mais do que uma amiga, ela não sabe, mas busca também uma mãe, um pai…já que seus pais estão sempre muito ocupados discutindo as questões financeiras e de orçamento familiar, já que o negócio recém aberto ( uma farmácia) está sendo ameaçado por uma grande rede concorrente. Enquanto seus pais só tem olhos atentos e cuidadosos para o negócio e a sobrevivência familiar, Hannah sofre diferentes formas de bulliyng por parte de diversos colegas. A perseguição e assédio vão se agravando até acontecer um estupro numa “festinha” na casa de um colega. Isso, após ela ja ter presenciado, em uma festa anterior, esse mesmo colega ter violentado sua ex-melhor amiga, numa situação onde não conseguiu ajudá-la. Mas, existe uma “cegueira” psíquica e um estado de alienação generalizado que envolve a todos, com exceção de um jovem que é apaixonado por Hannah e super bom caráter, sensível mas com um forte bloqueio emocional que o impede de se declarar a ela. Questão que deveria ser levada bem mais a sério, pelos pais, desde a infância, pois na adolescência, esse tipo de bloqueio torna-se uma espécie de tortura para muitos jovens. Na escola, observa-se a doença institucional instalada, havendo um estímulo e incentivo aqueles que são atletas, bonitos e bem sucedidos nas notas, os quais independente de seu comportamento moral e de seu caráter, são guindados a um status de “especiais, importantes e intocáveis” enquanto os outros alunos são apenas ” os outros”! Onde aqueles alunos mais sensíveis, fora desse padrão, os “diferentes” entram nessa lista os negros, os gays, os artistas, os carentes socialmente/emocionalmente acabam sendo alvo de assédio moral e sexual, de bulliyng e não conseguem se defender nem são ouvidos por ninguém. A instituição preocupa-se com o aspecto comercial e com a imagem externa que a escola possa ter e faz de tudo para se proteger, enquanto o ambiente escolar é um verdadeiro inferno, um campo de tortura e sofrimento, em que os mais sensíveis ou os hipersensíveis como Hannah, acabam por sucumbir, desistem de tentar se encaixar, desistem de serem percebidos, ouvidos, considerados e desistem de buscar um ambiente e um mundo mais justo, mais humano, ético e afetuoso. Muitos desses jovens, desistem da vida! A jovem Hannan, em sua caminhada existencial, vai dando muitos (!) sinais de que sua sensibilidade está sendo testada no limite assim como suas necessidades afetivas, sociais e familiares. Ela demonstra para todos que queiram ver e possuam um mínimo de sensibilidade e de humanidade, que sua estrutura está sendo gradualmente e gravemente abalada, nas bases. Mas ela dá “chances” as pessoas e a vida, como ela mesma, refere. Ela concede oportunidades aos pais, aos amigos, aos namorados, aos colegas de escola, aos professores e por último, ao Conselheiro da escola. Até que desiste e faz um plano: antes de tirar a própria vida, vai deixar 13 fitas gravadas onde ela fala das treze razões e de uma série de pessoas e circunstâncias que a levaram a desistir de viver, aqui. Ela entrega um pacote com as fitas e instruções na casa de um colega mais confiável, que ela considera amigo. E, numa cena chocante que mistura coragem com profunda dor física e de alma, ela concretiza seu plano, tirando a própria vida de um modo incomum com intuito de realmente sacudir a todos e tentar fazer com que acordem desse sono profundo da alienação, da frieza e da desumanização! O filme foi muito bem construído, dirigido e orientado por psiquiatras e terapeutas e faz, sem dúvida um CHAMADO ESTRONDOSO AOS PAIS, AS ESCOLAS, AOS JOVENS, A SOCIEDADE!!! O jovem apaixonado por Hannah, representa, no meu entender a voz da sensibilidade, da humanidade, do caráter, da consciência, da capacidade de se indignar e de, com a firmeza e a coragem de que tanto precisamos, acompanhar cada passo de todos os envolvidos e de garantir que as consciências fossem sacudidas e que a verdade e a justiça fossem encaminhadas. Quando ele sai da sala do Conselheiro da escola, após entregar as fitas e propor-lhe algumas perguntas que não aceitavam as respostas prontas e fáceis do representante escolar, ele diz: Precisamos melhorar a forma de nos tratarmos e de cuidarmos uns dos outros!!!

EU DIGO QUE SIM, NÓS PRECISAMOS MAIS DO QUE ISSO, PRECISAMOS TRANSFORMAR A FORMA DE NOS RELACIONARMOS E DE NOS TRATARMOS, URGENTEMENTE!!!

Há poucos dias, uma pessoa que me acompanha através de meus livros e pelas redes sociais, me escreveu para contar que havia perdido uma prima de 14 anos que se suicidou. Ela me disse que os pais pareciam próximos, presentes e que era uma menina doce, querida, tinha amigos…queria saber como isso poderia ter acontecido já que os sinais da cena de morte indicavam que ela planejou tudo em detalhes. Queria também saber se esses jovens Índigo e Cristal podem se matar para chamar a atenção de algo, para ensinar algo para nós!

Eu respondi que essa menina, que eu não conheço, assim como a Hannan da série e como tantos outros adolescentes, era, provavelmente, vista e percebida apenas de forma superficial por seus pais, “amigos, colegas, professores…deve ter dado muitos sinais, quem sabe?! E há quanto tempo?!! A proximidade física não garante intimidade, muito menos um vínculo afetivo forte, profundo. Quando se pergunta a um jovem, quando ele chega em casa: Filho está tudo bem? E ele diz que sim, há que se fazer o exercício essencial do Amor e observar, ler nas entrelinhas, percebendo gestos, olhares, o que mudou de quando ele saiu de manhã e agora que voltou, fazer ligações, conexões com os acontecimentos da vida familiar e escolar e a história de vida desse filho. Considerar sua personalidade, temperamento! Perceber sutis mudanças no comportamento...Mas para isso é preciso conhecer esse filho de verdade!!! E para isso, é necessário atenção, tempo suficiente e de qualidade dedicado a estar de verdade com o filho, a cuidar dele, a ouvir esse filho e a oferecer os limites, os parâmetros que ele está pedindo, a dizer o não que ele está precisando ouvir e a oferecer um ombro amigo quando assim percebermos que ele precisa mas não vai dizer, nem pedir. Na série, em uma das cenas, Hannah chega em casa e vendo os pais discutirem, mais uma vez, ela diz que tem uma festinha na casa de um colega mas que tem que estudar e se a mãe não quiser, ela não irá na festa!! Quer um sinal mais forte do que este?! Ela estava pedindo, implorando por um olhar mais cuidadoso e por um “não”da mãe que a impedisse de sair e que essa mãe lhe dissesse, por exemplo: Fica com a gente filha, eu posso te fazer um bom jantar e te ajudar com os estudos ou posso apenas estar junto contigo, te acompanhar! Mas a mãe não faz isso, nem o pai faz. Hannah, vai a festa e lá acontece a violência sexual com ela, que foi como ela descreveu: o golpe fatal, quando já estás de fato morta, em vida.

Fico por aqui, hoje, e sugiro com veemência que assistam a série e que recomendem aos professores, as escolas, aos pais e que todos possam assistir com o coração e a mente abertos, sem se defender ou justificar para si mesmo. Promovam e exijam debates, conversas, reflexões e, depois…ajam!!!!Nossa sociedade está carente de seres humanos realmente humanos!!! A escola de Hannah é simplesmente um microcosmo representativo de nossa célula social, completamente adoecida e necessitando de tratamento a base de AMOR VERDADEIRO, DE COMPAIXÃO, DE VERDADE, DE JUSTIÇA, DE CORAGEM, DE FÉ NA BONDADE E EM TODAS AS COISAS BOAS, OS DONS, OS TALENTOS E NA CAPACIDADE DE PERDOAR E DE SE RECONSTRUIR QUE TODO O SER HUMANO POSSUI!!!

Reflitam e ajam pois visão sem ação não passa de um sonho! Sonhar alimenta a alma mas amar é um verbo e exige ações para se concretizar!!!

Um abraço afetuoso desejando que haja Luzzzzz!