MEU DIÁRIO / POESIAS

Sou eu

Sou Eu
Quando a meia-luz
tudo se cala
e somente o céu
se abre
e nos fala
cai sobre nós
o véu de segredos
que jamais
se houverá revelado
cai de repente
como por milagre
uma chuva
de bênçãos
brancas, verdes
e azuis

Fala-nos assim
em um suave acalanto
o céu cor de mel
dourado de anil
clava-nos a palavra
como o verbo feito luz
aurora nova boreal
unge-nos de encanto
envoltos nesse manto
somos alçados
em um vôo
que nada tem de novo
é apenas reencontro
de um espectro sombrio
com o espaço vazio
com o sentido desse rio
que sozinho caminhou
até chegar ao limiar
de recomeçar

É como um frasco
de puro cristalino
que exala um aroma
ainda por ser
inventado…

O perfume está
no ar, nas nuvens
nas plantações
alguém há de captar
de ler e interpretar
alma e espírito
em um mesmo instante
entoando no corpo certo
materializando
expressando o verbo
corporificando
no momento exato
a nota única
de um tempo-espaço
que exala
um estranho halo
raro, efêmero
nesse corpo-mundo
morte e vida
possibilidade plena
infinita
tanto quanto a vida
rarefeita, perfeita
como aquela onda
que no mar surgiu
agora e…
quebrou, sumiu
não se sabe como,
onde… onde…
onda que é mar
mar que é água
e areia…
areia que é onda
do mar de areia
e água
água que é mar
de onda e areia
do mar…
cheio de onda
do mar de areia
e água do mar
cheiro tão bom
veio e passou

Eu, como um frasco
descubro-me então,
cheio e vazio.

Sigo sonhando
acordo, desperto
me abraço e me aperto
espremo e sufoco

Caminho sozinho e grito
cheio e vazio

Sou eu…

30/12/10 (noite)
Ingrid Cañete