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Dica de filme: Stella

Título no Brasil: Stella
Título Original: Stella
País de Origem: França
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 103 minutos
Ano de Lançamento: 2008
Estréia no Brasil: 11/06/2009
Direção: Sylvie Verheyde

Stella é um filme, acima de tudo, muito bem feito e muito real. A diretora preocupou-se em dar voz as crianças através da personagem principal, Stella. A atriz que a representa tem atuação excelente, convincente e impactante.

Trata-se da história de uma menina argentina exilada com os pais na periferia de Paris e que sofre tanto pela falta de sensibilidade , de atenção e de cuidado por parte dos pais como por parte dos professores e colegas cujo grau de preconceito e gestos de humilhação e constrangimento dirigidos à Stella e também a outros alunos, são de nos fazer duvidar de que a espécie humana seja provida de alma e de consciência.

A vida de Stella retrata a realidade de muitas, eu diria de milhares de crianças atualmente, num contexto de globalização onde a perda dos valores fundamentais e o ritmo frenético leva os adultos a viverem alheios a sua própria condição de seres humanos. E, com isso, vivem também alheios a condição de humanos de seus semelhantes, o que se torna ainda mais severo e evidente quando esses semelhantes são de algum modo “diferentes” ou “estrangeiros”.esse é o caso de Stella.

A história de Stella é também a história de vida de muitos de nós adultos, o que torna o filme um instrumento, ao mesmo tempo, de entretenimento e de uma catarse tão profunda quanto a sensibilidade e a abertura psíquica e de alma do espectador permitir.

Stella é uma menina inteligente, supersensível, multissensorial mas que vê , sente e experimenta tudo especialmente através dos seus imensos olhos. Ela mostra esse sentido extremamente aguçado como forma de defender-se desse mundo frio, duro, incoerente, louco e injusto em que ela cada vez mais, se vê envolvida. Seu momento de despertar e de escolha crucial entre a loucura e a sensatez, entre a consciência e a inconsciência é o momento onde ela diz a si mesma: “tomei umas boas decisões, vou me adaptar!” Ela se dá conta através da convivência com sua única amiga, também argentina, de uma família não só mais estruturada como de melhor nível social e intelectual, que ela pode ser aceita, que ela pode ser respeitada e querida se ela obtiver melhores notas na escola. Afinal, ela entende que esse é um código de aceitação. E percebe, com o estímulo sutil da amiga, que ela pode alcançar isso. Sua amiga é uma criança que exerce uma liderança natural, é afetiva, sincera, inteligente, tira boas notas e tem hábitos saudáveis como a leitura, a música, estimulados, obviamente, pelos pais.

Stella que nunca tivera antes a oportunidade de ver outras possibilidades, de vislumbrar outros modelos e referenciais de vida e de convivência.

Através de sua amiga, convive em ambiente mais salutar, equilibrado e mais elevado e parece ser tocada em sua alma. A amizade verdadeira e a estima que Stella tem por sua amiga, bem como a recíproca percebida, funcionam como a alavanca para que Stella se descubra, se revele para si mesma e aos poucos, para os pais, para o mundo a sua volta. Ela percebe que tem escolha. Mesmo tendo sido muito “contaminada” por este universo que lhe impôs a família o qual lhe parecia, até então, como a única possibilidade, ela se dá conta que tem escolha sim e que “se adaptar” como fez sua amiga é sua “única” chance. Decide agarrá-la com as duas mãos. O outro lado desta escolha é que ela decide enquadrar-se, ela se rende ao “sistema” para não ser renegada, marcada com ferro e fogo para sempre. E, com isso, abdica de sua espontaneidade criativa, de sua irreverência saudável, de sua personalidade docemente carismática, de seu espírito de justiça, de sua lucidez e pureza, de seus dons e talvez de seus sonhos…

Esse é o alto preço que estamos vendo muitas crianças de agora, pagando por chegarem a essa vida tão diferentes. Elas que representam a humanidade mais evoluída e não são compreendidas. Elas estão sendo trituradas pelo sistema que diz: ou te adaptas ou cai fora, nós te excluímos, nós te anulamos, nós te anestesiamos com drogas legais, como a Ritalina(anfetamina que causa dependência), ou com drogas ilegais, já que as legais abrem caminho para as outras… nós te matamos de um jeito ou de outro! Desista de ser diferente, desista de ser quem és!

Stella é bonito, é comovente, é cativante, é instrutivo. É um filme revelador da dureza a que pode chegar e a que chega o ser humano adulto com ele mesmo e com as crianças, seja este adulto um pai, uma mãe ou um professor. Mostra que a diferença entre humanos e monstros não está na aparência física e sim na luz de sua consciência, na pureza de sua alma e na sua atitude diante da vida, do outro.

Mostra que nossas instituições estão muito doentes, deficientes, carentes de oxigenação, de coerência, de renovação, de alma, de coração, de amor, de competência,de filtros e de políticas de gestão capazes de selecionar e afastar os monstros da profissão que mais marca na infância: o professor!

Ingrid Cañete